A muda fora plantada no meio da praça. Mais quatro mudas foram plantadas, cada um em uma das extremidades. A árvore que apontara para o sul morrera, dando a impressão que as árvores remanescentes apontavam para o Lar das Moças de São Bento, o maior bordel da região. A desarmonia da praça era ainda maior pois a muda central originara algo tortuoso, que parecia querer fugir da seta imaginária.
João Maurício foi quem projetou a praça. Antes arquiteto famoso, amargurou-se da criação e mudou de ofício. O tempo o levou a ser um dos feirantes do sábado na Desarmônica. Esse era o jeito como os moradores chamavam o local.
A Igreja – toda praça precisa de uma igreja – ficava na parte norte, enquanto a feira realizava-se ao sul. O Padre Gilson conhecia a todos na cidade e era muito amigo de João. O sacerdote era líder da Associação dos Feirantes, que contava com sete integrantes. Os sábados eram cheios, mas os vendedores, temendo repressão da ditadura, que já acabara há vinte anos, não entravam na associação.
A cidade vivia uma época de recessão, muitas pessoas foram-se da cidade e os impostos já não eram suficientes. Muitos iam para ficar ricos e voltar. Poucos voltavam. Pouquíssimos ficavam ricos. Luizinho ficou e voltou.
Senhor Luiz aprendera a tocar piano na capital, fora para aprender as coisas de Deus, mas desviou-se do clero e virou músico.
Voltou ontem para a cidade, estava doente. Morreu hoje, no sábado, pela madrugada. O bondoso Luiz decidiu deixar os bens para a Igreja. O Padre Gilson decidiu vender o piano do fiel. Quem iria comprar um piano? Nessa cidadezinha?
Maurício e o padre começaram a missão às cinco horas da manhã. De nada isso servirá à Igreja.
_ Ajudem a Casa de Deus. Vende-se um piano.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário